A Aldeia Global |
| Autor: João Borges |
| Terça-feira, 05 Junho 2012 21:38 |
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Quando eu era pequeno, este era o termo do futuro. Hoje em dia, por vezes pergunto-me se já é mesmo um termo do presente. A minha resposta mais intuitiva diz-me que sim, de imediato. É claro! A Aldeia Global realmente existe, o mundo evoluiu no sentido da Globalização, estamos cada vez mais conectados, mais próximos uns dos outros. Tudo inegável. Às vezes comento com amigos e familiares que hoje é que dou valor aos antigos emigrantes portugueses. Esses sim, corajosos! Não havia cá roaming ou computadores portáteis, muito menos internet e smartphones para levar para todo o lado. Havia correio, saudade, dúvida, muita ambição. E em grande parte dos casos, um desespero bem diferente do dos dias de hoje. Terá sido preciso viver 28 anos, até emigrar, para aí sim sentir o devido respeito por esses antigos emigrantes? Talvez sim, e talvez não tenha sido o único a quem isso passou despercebido, por isso aproveito para partilhar. A verdade é que o mundo mudou desde essa altura. Agora a Aldeia Global permite-nos viver em qualquer parte do mundo, trabalhar em múltiplos projectos simultaneamente e em diferentes zonas do globo, manter muitas amizades verdadeiras, em que partilhamos, em tempo real, as aventuras e desventuras de cada um. O amigo ‘virtual’ já quase não é virtual. Quase. Até aqui tudo perfeito. De qualquer forma, não deixa de haver, para mim, uma zona cinzenta em todo este novo espectro cheio de cores. Nessa zona cinzenta, o que vejo é que também há um mundo em que estamos todos mais conectados mas de uma forma cada vez mais individual. Temos centenas de amigos no Facebook e seguidores no Twitter, trocamos dezenas de e-mails e mensagens, profissionais e pessoais, que nos põem em contacto com toda a gente. Mas quase sempre sozinhos, certo? Ou com o novo ‘melhor amigo do Homem’. Agora sem ele é que nos sentimos sós, não é? Friso que é uma zona muito cinzenta, onde tudo o que me ocorre são suposições e perguntas, sem nenhuma pretensão de certeza. Mas...o que é que os Portugueses faziam antes de passar cerca de cinco horas online por dia, como hoje acontece? Nunca deu por si, numa zona menos desenvolvida do país ou do mundo, normalmente menos global e ‘conectada’, a reparar que aquele tipo de vivência já não se encontra em qualquer parte? Ser global é estar em todo o lado e ao mesmo tempo em lado algum? Por outro lado, o mundo cada vez mais global, no actual modelo, também é o mundo em que, de repente, todo o castelo se desmorona sem que ninguém saiba porquê e, pior, sem que ninguém tenha culpa nem assuma responsabilidade. O mundo dito global mas cujo sistema tende a afunilar, individualizar, em vez de abrir, globalizar. Um mundo que, de tão global, cada vez mais permite que os interesses de poucos ditem os destinos de muitos. Não era isto que, há 20 anos, me ensinavam que ia ser a Aldeia Global. Estamos no sentido errado? Eu diria que não. Devemos repensar, em todo o momento, o caminho que estamos a seguir? Tenho a certeza que sim. Parece que nos deixámos de auto-avaliar e auto-corrigir. Ou deixámos de ter liberdade para isso. O futuro vai-nos dar todas as respostas, mas nós é que o vamos construir.
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