Das páginas para o ecrã

Autor: Cláudia Fernandes
Quarta, 27 Junho 2012 22:59

Cada vez há mais títulos literários a passarem para o ecrã, seja pela mão do Cinema, seja apenas para televisão, no formato de série ou telefilme. Não duvido que esta opção seja uma mais valia para os autores no que toca a orçamento. Ganha-se dinheiro ao dar autorização que o seu texto passe das páginas para o ecrã. No entanto, há muita coisa que se perde com esse passo, nomeadamente a magia de quem lê. Vamos ser práticos, tudo tem mais suspense no livro, porque somos nós que criamos na nossa mente uma ideia da cena. Logo, desfruta-se mais. Ao passarem livros para filme ou série, a história fica reduzida à interpretação do realizador. E não conseguimos fugir àquilo. Pelo menos é esta a minha opinião.

Se vamos atentar em algumas obras que passaram para o ecrã, percebemos onde eu quero chegar. Começo, então, pelos “Maias”, de Eça de Queirós. Virou série, pelas mãos da Rede Globo. Confesso que quando fui “obrigada” a ler aquele monte de folhas para o Secundário me assustei. Mas, à medida que fui lendo, fui mudando gradualmente a minha opinião. Sim, cansa um pouco aquelas infindáveis descrições típicas da escrita queirosiana, mas ao ler enriqueci, e de que maneira, o meu vocabulário. Queirós sabia o nome de tudo, de todos os objectos e fazia descrições minuciosas, que nos permitiam criar, na nossa cabeça, uma imagem aproximada da que ele estava a imaginar. Mas como é que se consegue passar para a tela ou ecrã aquelas descrições fantásticas? Não consegue.

Um outro livro que me prendeu da primeira à última página foi “Equador”, de Miguel Sousa Tavares. Confesso que o procurei pelo que ouviam dizer do livro. Muita gente mo aconselhou e, quando o li, percebi o motivo. Realmente sensacional, numa escrita do mesmo gabarito. Chegou à televisão em formato de série e… que desilusão. Preferia ter ficado, apenas, pelas páginas. Aquela história que foi contada na televisão, em nada teve a ver com o que eu criei quando li o livro.

Por último, vou falar do escritor de língua portuguesa que mais vende no Mundo inteiro – Paulo Coelho. Tem um estilo próprio em que consegue que a sua escrita vá de encontro à consciência de cada um, e nos faça reflectir, por vezes, de situações que nos eram garantidas ser de uma maneira e passar a vê-las de um outro ângulo. Não é qualquer escritor que o consegue fazer. É um facto. E, nessas viagens espirituais que ele nos faz ter ao longo de cada obra, ele faz com que o acompanhemos num raciocínio que, às duas por três, já julgamos também ser o nosso. Pego no caso do “Veronika decide morrer”, passado para o cinema. A lição de vida está lá, mas a “viagem de descoberta” que nos permitia momentos de reflexão pessoal desapareceu. Por completo.

Posto isto, por vezes pergunto-me o porquê dos autores deixarem as suas obras serem “filmadas”. Será que vale a pena reduzir todas as visões possíveis de uma história – tendo em conta que cada pessoa que lê terá a sua – a uma única? E os próprios autores, não se sentirão defraudados com o resultado final?

A Literatura ganhava mais, na minha opinião, se não permitisse que as suas grandes obras fossem parar à Sétima Arte. Para mim, e agora falo a título pessoal, em nada se compara o gosto de ler uma história e criar a minha imagem dela. Mas claro que ver o filme é muito mais fácil do que ler, principalmente quando o livro tem muitas páginas.

 

ÚLTIMOS VÍDEOS