Faixa publicitária

Apatia ou empatia?

Autor: João Borges
Terça-feira, 03 Julho 2012 22:29

Há uns tempos descobri um pequeno texto de Miguel Torga que me deixou pensativo e, acima de tudo, triste e cheio de dúvidas:

"É um fenómeno curioso:
O país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe, festeja indignado, mas não passa disto. Falta-nos o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados."

Sábias palavras, cheias de força e subtileza. Um texto tão curto, tão simples, mas que diz tanto sobre nós, como sociedade. Acima de tudo, e com muita tristeza o digo, é verdade o que ali está escrito. Por mais que nos custe admitir, e talvez esse seja um dos problemas centrais, somos realmente uma sociedade acomodada, 'revoltada pacificamente', em que normalmente a intenção não chega à acção. Sentir-me como parte deste todo, não me deixa descansar sem pensar: porquê? Porque é que somos assim?

Será que somos todos um bando de egoístas? Não quero acreditar,mas...ao mesmo tempo que nos vejo apáticos em sociedade, vejo-nos, em muitos casos, como indivíduos activos, lutadores, empreendedores. Mas onde estão esses indivíduos quando é evidente, aos olhos de todos, que algo está mal na sociedade portuguesa? Será que só somos capazes de agir vigorosamente por nós e para nós próprios, preferindo o conforto quando a questão toca a todos? Não quero que essa seja a razão. Então que outra?

Numa das minhas crónicas anteriores referi que, na minha óptica, o topo é um reflexo da base e que o contrário não se aplica. Será esse o motivo? Será que o que temos não é apatia mas sim empatia? Empatia sim, no sentido em que pensamos: "Oh, não vale a pena fazer nada, sempre foi e sempre será assim." Esta típica frase, para mim, revela mais empatia que apatia. Será que aqueles que têm poder para nos 'fazer mal' não são mais que um reflexo da grande maioria? Mais uma vez, não quero que seja esta a razão.

Que conclusões tiro? Nenhuma, por ora. Talvez apenas a de que vale a pena reflectir sobre este problema, porque se não o entendermos, certamente não vamos acabar com ele. Eu acredito que, por muito mau que possa ser o actual momento em Portugal, estamos no momento certo para pensar a mudança, e agir. Precisamos de mudar! Que brincadeira, que palhaçada é esta que vemos no telejornal todos os dias? Quem são estes senhores, estes ladrões de colarinho branco, que comandam as nossas vidas? Já chega. Mudemo-nos, mudemos os nossos, e assim mudemos o nosso país.

Por fim, uma outra frase sábia, desta feita de Peter Marshal: "Um mundo diferente não poderá ser construído por gente indiferente". Dá que pensar.

ÚLTIMOS VÍDEOS