Uma equipa internacional de investigadores, liderada por Maria Paula Marques, da Unidade “Química-Física Molecular” da Universidade de Coimbra (UC), identificou os compostos antioxidantes com maior capacidade de prevenção dos cancros de mama e melanoma, presentes em produtos da dieta mediterrânica como o azeite e outros fitoquímicos (compostos existentes em vegetais – fruta, legumes, cereais, soja, etc.).
Sabendo-se que há uma ligação direta entre o consumo da dieta mediterrânica e uma menor incidência de vários tipos de cancro (ex. gástrico) e de doenças cardiovasculares, os investigadores iniciaram, há cerca de oito anos, estudos que lhes permitissem saber quais os compostos que possuem maior capacidade de eliminação de radicais livres nocivos (antioxidantes) e por que motivo.
Para identificar e determinar a capacidade antioxidante e quimiopreventiva de compostos fitoquímicos consumidos numa dieta quotidiana (ex. flavonóides, como a quercetina e a luteolina), os investigadores realizaram estudos biológicos a nível molecular, em linhas celulares cancerígenas humanas já que, explica a coordenadora do estudo, «considerando que um extrato vegetal pode conter mais de uma centena de compostos diferentes, é necessário avaliar o comportamento de cada um, isoladamente, para assim poder atribuir-lhe um efeito biológico específico, relacionando-o com a sua estrutura. Ao estabelecer estas Relações Estrutura/Atividade (REA), identificam-se as características estruturais responsáveis por uma determinada atividade benéfica para a saúde».
Por outro lado, a investigação revelou que a dosagem é determinante para a função antioxidante benéfica. De facto, a partir de uma certa concentração os compostos exercem geralmente uma ação nociva. Os ensaios realizados até à data permitiram determinar as dosagens benéficas e as danosas, que podem diferir de composto para composto. Esta conclusão, alerta Maria Paula Marques, «mostra que é urgente a criação de normas reguladoras da utilização de aditivos alimentares, tal como acontece com os medicamentos. Se consumidos indiscriminadamente, estes e outros produtos de venda livre (ex., os cosméticos ditos naturais) podem ter efeitos indesejáveis, ao não especificarem a dosagem de antioxidantes presentes».
Os resultados desta investigação multidisciplinar na área da Química Médica, que teve a colaboração de investigadores do Rutherford Appleton Laboratory (Oxford, Reino Unido), da Faculdade de Ciências do Porto e do Instituto Português de Oncologia (IPO), permitem fornecer informação muito específica, identificando os compostos que melhor combatem o stress oxidativo e contribuindo para a compreensão, a nível molecular, desta atividade antioxidante, auxiliando assim as indústrias alimentar e de cosmética a desenvolver produtos mais eficazes.
Das metodologias utilizadas pelos investigadores ao longo deste trabalho destacam-se a modelação molecular por métodos teóricos, e as espectroscopias Raman (frequentemente apelidada de “a técnica que revela tudo”), de infravermelho e de difração inelástica de neutrões, esta última inexistente em Portugal tendo a equipa recorrido ao Laboratório Rutherford Appleton, no Reino Unido. Os investigadores pretendem agora realizar estudos in vivo, como continuação lógica dos já efetuados em células humanas.
